Com a entrada em vigor da sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros vendidos para os EUA, governo e empresários descartam a reciprocidade e buscam novos mercados para setores atingidos, além de medidas emergenciais
Raphael Pati e Fernanda Strickland – Correio Braziliense / FONTE: DP
O governo afastou, ontem, a possibilidade de aplicar a Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada em 2025 no Congresso Nacional, como resposta ao tarifaço do presidente norte-americano Donald Trump, que passa a vigorar a partir de hoje. Em entrevista coletiva após reuniões com cinco associações de setores afetados pela tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, autoridades afirmaram que a resposta será por meio da negociação.
O vice-presidente Geraldo Alckmin fez uma alusão à Lei de Talião para afirmar que, se depender do governo brasileiro, as negociações devem continuar por vias diplomáticas. “Com o ‘olho por olho’, o que pode acontecer é os dois ficarem cegos”, comparou. Alckmin frisou que o Brasil deve manter a defesa do multilateralismo e do respeito às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e destacou os acordos de livre-comércio com a União Europeia (UE), com o EFTA e com Cingapura. Também descartou a possibilidade, por ora, de o Brasil aplicar a reciprocidade contra os EUA.
O objetivo central, de acordo com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), Márcio Elias Rosa, é sair em busca de novos mercados para as empresas atingidas diretamente pelo tarifaço. “Quando você fala numa tarifa de mais 20%, 25%, você acaba reduzindo a competitividade da indústria nacional, acaba perdendo o mercado norte-americano e é substituído por outros. Por isso é que nós temos que correr. O presidente Lula nos orienta a buscar a interlocução com os setores”, disse.
Trabalho forçado
O ministro reforçou que a busca de novos parceiros para os setores atingidos é a prioridade, neste momento. Rosa também lembrou que o governo aguarda a definição sobre a tarifa de 12,5% sobre países que seriam coniventes com trabalho forçado — segundo os EUA — o que pode impactar diretamente o Brasil. A expectativa é que a decisão seja proferida no próximo dia 24. “Nós estamos na expectativa de saber se eles serão cumulativos com os 25%, ou não”, frisou o chefe do Mdic.
O vice-presidente Alckmin lembrou a importância do mercado norte-americano para o Brasil, sobretudo para uma boa parte das empresas afetadas pelas tarifas, mas reconheceu que é necessário buscar novas alternativas. Segundo ele, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimento (ApexBrasil) terá um papel relevante na tentativa de sair em busca de mercados diferentes. “Esse é um dos grandes desafios que precisam ser seguidos e nós precisamos ter uma política, juntos com a Apex, de buscar o outros mercados para os setores atingidos”, disse Alckmin.
Outra via de ajuda às empresas é a concessão de crédito diferenciado a juros menores para as afetadas pelo tarifaço. Embora essa seja uma pauta em discussão pelo governo federal, o ministro do Comércio e Serviços não adiantou uma previsão de quando essas medidas poderiam ser anunciadas e que isso ainda depende do presidente da República. “Nós temos quais são os setores que exportam para os Estados Unidos, quais os que estão sujeitos à (Seção) 301, quanto isso impacta na balança comercial, isso nós temos, mas é preciso confirmar setores e, a partir disso, vamos levar para o presidente Lula o quadro e ele vai tomar a decisão”, avaliou.
Máquinas
Um dos setores mais atingidos pela nova tarifa, a indústria de máquinas e equipamentos participou das conversas com o vice-presidente e o ministro. O presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso, disse que o segmento avalia que as novas tarifas impostas pelos Estados Unidos devem reduzir a competitividade dos produtos nacionais, mas mantém expectativas positivas para a ampliação das exportações a outros mercados.
Segundo Velloso, o encontro com o governo marcou o início das discussões entre o governo federal e o setor produtivo sobre a nova fase do tarifaço. “Foi a primeira reunião que nós tivemos com o governo, aqui na vice-Presidência, tratando do novo tarifaço. O governo nos convidou para essa conversa, mostrando bastante sensibilidade e preocupação com as nossas exportações”, afirmou.
O dirigente ressaltou que o setor já enfrentou uma situação semelhante anteriormente e que as experiências passadas servem de parâmetro para as medidas que serão discutidas com o Executivo. “Nós estamos trabalhando com o governo, apresentando propostas para melhorar a competitividade do setor de máquinas e equipamentos”, disse Velloso.
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