FONTE: BLOG DO FRIO

Dez anos após o acordo internacional, o setor enfrenta o desafio de ampliar o uso de fluidos refrigerantes de menor GWP sem comprometer a eficiência energética dos sistemas

PorLucas Fugita*

Foto: Shutterstock

A Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal completa dez anos em 2026, período marcado pela ampliação das alternativas tecnológicas para reduzir o impacto climático da refrigeração e do ar-condicionado. A medida estabeleceu a redução gradual do consumo de hidrofluorcarbonos (HFCs), muitos dos quais apresentam elevado potencial de aquecimento global (GWP), e impulsionou o desenvolvimento de novos fluidos refrigerantes e equipamentos.

A mudança exigiu mais do que substituir um composto químico por outro. Fabricantes, projetistas e profissionais de instalação e manutenção precisaram adaptar equipamentos, componentes, procedimentos de trabalho e práticas de segurança para acompanhar a evolução dos refrigerantes.

A indústria já havia passado pela eliminação dos clorofluorcarbonos (CFCs) e pela redução dos hidroclorofluorcarbonos (HCFCs), em razão de seus efeitos sobre a camada de ozônio. Os HFCs representaram uma alternativa por não apresentarem potencial de destruição dessa camada, mas o elevado GWP de muitos desses fluidos tornou necessária uma nova etapa de transição.

As hidrofluorolefinas (HFOs) ampliaram as opções para aplicações em refrigeração comercial, ar-condicionado, bombas de calor e chillers, tanto em equipamentos novos quanto em projetos de retrofit. Na linha Opteon™, da Chemours, as famílias XP e XL reúnem alternativas com menor GWP para diferentes necessidades de aplicação.

O Opteon™ XL41, por exemplo, foi desenvolvido para substituir o R-410A em equipamentos novos, com menor impacto climático e características de desempenho e eficiência compatíveis com as necessidades dos fabricantes. O Opteon™ XP40 (R-449A), por sua vez, é utilizado em refrigeração como alternativa ao R-22 e ao R-404A, com menor GWP e potencial de ganho de eficiência energética em comparação com o R-404A.

Em agosto de 2026, a Chemours ampliou o portfólio Opteon™ com os fluidos ZE e 515B para aplicações em chillers, incluindo sistemas destinados a grandes infraestruturas de resfriamento, como data centers.

Muito além do GWP

O potencial de aquecimento global é um dos critérios para avaliar um fluido refrigerante, mas não determina sozinho o impacto ambiental de um sistema. A análise também precisa considerar as emissões diretas, provocadas por vazamentos, e as indiretas, relacionadas à eletricidade consumida durante a operação.

Um fluido com menor GWP pode oferecer benefícios climáticos inferiores aos esperados se sua aplicação resultar em perda expressiva de eficiência energética. O aumento do consumo de eletricidade pode reduzir parte do ganho obtido com a diminuição das emissões diretas.

Essa equação ajuda a explicar o desenvolvimento de compressores de velocidade variável, trocadores de calor mais eficientes, sistemas com menor carga de refrigerante, sensores e controles eletrônicos. A combinação dessas tecnologias com fluidos de menor GWP permite reduzir o impacto ambiental sem desconsiderar o desempenho operacional.

A escolha também depende da capacidade do equipamento, da temperatura de operação, das condições ambientais, da carga de refrigerante e dos requisitos de segurança. Custos, disponibilidade, manutenção e vida útil precisam entrar na avaliação.

O resultado não depende de uma única decisão. A indústria química desenvolve o fluido refrigerante, o fabricante projeta o equipamento, o projetista dimensiona o sistema e o instalador responde pela execução do serviço. Ao usuário cabem os cuidados com a operação e a manutenção, que influenciam diretamente o desempenho ao longo do tempo.

Novos fluidos refrigerantes exigem preparo profissional

A expansão dos fluidos refrigerantes A2L, classificados como de baixa inflamabilidade, traz exigências específicas para os profissionais do AVAC-R. Conhecer as propriedades do fluido é apenas o começo: é preciso entender como elas afetam a instalação, a operação e a manutenção dos equipamentos.

Os procedimentos envolvem atenção à classificação de segurança, aos limites de carga, ao armazenamento e transporte, à compatibilidade das ferramentas, à detecção de vazamentos e ao controle de fontes de ignição. A estanqueidade do sistema, a carga correta de refrigerante, o comissionamento e a manutenção preventiva também são fundamentais. Ao fim da vida útil, a recuperação adequada do fluido evita sua liberação desnecessária na atmosfera.

A digitalização oferece recursos para monitorar pressões, temperaturas e consumo de energia, facilitando a identificação de falhas e possíveis vazamentos. O uso dessas ferramentas, contudo, não dispensa profissionais qualificados para interpretar os dados e executar os procedimentos necessários.

Compete à indústria contribuir para essa preparação, com informações técnicas e treinamentos desenvolvidos em colaboração com fabricantes, distribuidores, escolas técnicas e entidades setoriais. No Brasil, a capacitação está entre as prioridades da Etapa I do Programa Brasileiro de Redução do Consumo dos HFCs, que abrange o período de 2026 a 2032.

Brasil tem metas definidas

A disponibilidade de novas tecnologias não elimina os obstáculos à sua adoção. Custos e oferta de refrigerantes variam entre mercados, enquanto normas técnicas e formação profissional nem sempre acompanham a velocidade das mudanças. Vazamentos, manutenção inadequada e descarte incorreto também comprometem a gestão dos fluidos.

A recuperação, a reciclagem e a regeneração de fluidos refrigerantes integram esse esforço. Essas práticas permitem melhorar o aproveitamento dos recursos e reduzir perdas ao longo do ciclo de vida dos sistemas.

No Brasil, a Etapa I do programa prevê reduzir o consumo de HFCs em 10% até 2029 em relação à linha de base nacional. A trajetória de redução progressiva tem como meta chegar a 80% em 2045.

O cumprimento desse cronograma depende de condições que vão além da oferta de refrigerantes alternativos. A previsibilidade regulatória permite que fabricantes planejem investimentos, desenvolvam produtos e preparem suas redes de assistência técnica. Para instaladores e empresas de manutenção, a adaptação envolve atualização profissional, ferramentas compatíveis e procedimentos adequados às características de cada sistema.

Uma década depois da Emenda de Kigali, o setor de AVAC-R dispõe de mais alternativas para reduzir as emissões associadas à refrigeração e ao ar-condicionado. O próximo passo é ampliar o uso dessas soluções sem comprometer a segurança e a eficiência dos equipamentos. A evolução dos fluidos precisa avançar junto com as normas técnicas, a qualificação profissional e as práticas de operação e manutenção.

* Lucas Fugita é especialista em Serviços Técnicos, Estratégia e Desenvolvimento de Negócios da Chemours.

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